Novo protocolo de rastreamento do câncer colorretal no Brasil

Novo Protocolo de Rastreamento do Câncer Colorretal no Brasil: O Que Muda e Por Que a Ciência Está no Centro da Decisão

Em julho de 2025, o Brasil acompanhou a morte da cantora Preta Gil, aos 50 anos, vítima de câncer colorretal. Durante mais de dois anos, ela compartilhou publicamente sua trajetória de diagnóstico, cirurgias, internações e tratamentos com uma transparência que transformou o debate sobre a doença no país. O caso foi citado pelo próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o anúncio de um novo protocolo de rastreio pelo SUS que entra em vigor no segundo semestre de 2026.

A pergunta que se impõe não é se o Brasil estava preparado para discutir câncer colorretal. A pergunta é se o Brasil estava preparado para agir com base em evidências científicas antes que mais vidas fossem perdidas.

A resposta veio com a adoção do FIT (Teste Imunoquímico Fecal) como novo exame de referência para o rastreamento do câncer colorretal no Sistema Único de Saúde. É uma mudança fundamentada em literatura internacional, em dados de sensibilidade diagnóstica e na experiência acumulada por sociedades médicas que há décadas defendem protocolos mais assertivos.

1. Câncer Colorretal no Brasil: Os Números Que Exigem Ação Imediata

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53,8 mil novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil entre 2026 e 2028. A doença figura entre as três neoplasias mais incidentes no país, afetando homens e mulheres em proporções semelhantes.

Um estudo publicado em 2026 projeta que o número de mortes por câncer colorretal no Brasil deve aumentar quase três vezes no período de 2026 a 2030, passando de aproximadamente 57,6 mil óbitos para cerca de 127 mil mortes em cinco anos. O envelhecimento populacional, hábitos alimentares inadequados, sedentarismo e obesidade são fatores que impulsionam essa curva ascendente.

Esses números não permitem interpretações flexíveis. Eles exigem protocolos de rastreamento baseados em eficácia comprovada, capazes de identificar lesões em estádios iniciais, quando a chance de cura ultrapassa 90%.

2. O Que Era Feito Antes e Por Que Não Era Suficiente

Até a atualização do protocolo, a diretriz do SUS recomendava a colonoscopia a partir dos 50 anos. O procedimento, embora eficaz, é complexo: exige preparo intestinal, sedação e mobilização de equipe especializada. Na rede privada, o primeiro passo podia ser o exame de sangue oculto nas fezes em sua versão mais antiga, o teste guaiaco, que detectava a cor vermelha nas fezes.

O problema do teste guaiaco era técnico e científico, não operacional. Como explicou o Dr. Olival de Oliveira Junior, presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), em entrevista à Rádio CBN:

“Era feito um teste que detectava a cor vermelha. Tinha que fazer uma dieta, não ingerir nada que pudesse ter a cor vermelha: tomate, carne. Se ele desse positivo, você precisava fazer uma colonoscopia. E o que acontecia era que você fazia a colonoscopia e não tinha nada.”

Falsos positivos geravam colonoscopias desnecessárias e sobrecarga no sistema. Falsos negativos, por sua vez, deixavam lesões pré-malignas sem detecção. O protocolo anterior carregava limitações que a literatura científica internacional já havia superado.

3. O Teste FIT: O Que a Ciência Recomenda e Por Que o Brasil Adotou

O FIT (Fecal Immunochemical Test) é um exame que utiliza anticorpos específicos para detectar hemoglobina humana nas fezes. Isso significa que ele não reage a alimentos e não dá positivo sem que haja realmente sangue de origem humana no trato gastrointestinal.

As vantagens do FIT sobre o método anterior são mensuráveis:

  • Maior sensibilidade para detectar sangramento de origem colorretal
  • Maior especificidade, com redução significativa de falsos positivos
  • Não exige restrição alimentar antes da coleta
  • Coleta domiciliar: o paciente recolhe a amostra em casa
  • Escalabilidade: permite ampliar o rastreamento para regiões remotas

4. A Voz da Autoridade Científica

O Dr. Olival de Oliveira Junior, presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, é a voz que sustenta tecnicamente a mudança. Com mais de 30 anos de atuação, formação na UFPR, especialização na Cleveland Clinic e pós-doutorado na Cornell University, sua trajetória confere à posição da SBCP um peso científico indiscutível.

“Esse teste novo detecta uma substância que existe dentro do nosso sangue. Não existe possibilidade de ele dar positivo se não tiver realmente sangue. A ideia de fazer essa prevenção é justamente fazer o diagnóstico precoce de lesões. Se você conseguir um diagnóstico no estádio 1, você tem mais de 90% de chance de curar esse paciente.”

5. Implementação Escalonada: Como o Protocolo Chega à População

O Ministério da Saúde estruturou a implementação de forma escalonada, com início previsto para agosto ou setembro de 2026. A meta é ambiciosa:

  • 10 milhões de pessoas por ano compõem o público-alvo
  • Adesão inicial estimada entre 20% e 25%
  • Expectativa de identificar um caso de câncer a cada 300 testes realizados

6. O Avanço Terapêutico e a Medicina de Precisão

O rastreamento é o primeiro passo. O Dr. Virgílio Souza, do A.C.Camargo Cancer Center, destaca que o avanço mais importante é a identificação do perfil molecular de cada tumor para direcionar a terapia-alvo ou imunoterapia.

“Com esses avanços terapêuticos, temos a individualização terapêutica. Conseguimos ser mais assertivos e ter melhores resultados. O conhecimento do perfil molecular direciona a melhores estratégias de tratamento.”

7. Conclusão: Ciência, Não Adivinhação

A implementação do novo protocolo marca um ponto de inflexão. Pela primeira vez, o SUS adota um exame cuja eficácia é sustentada por dados de custo-efetividade reconhecidos mundialmente. O protocolo novo é a decisão de substituir a probabilidade aproximada pela especificidade molecular.

Agende sua avaliação com o Dr. Olival de Oliveira Junior, presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia. A Proctoclin, em Curitiba, é referência no sul do país desde 1994.